quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Os tipos de cliente de um revisor de textos

A vida de um revisor quase nunca é um mar de rosas, mas para quem escolheu viver das palavras e frases a dica é levar os acontecimentos com muito bom humor.
Pensando nisso, o site Digestivo Cultural listou os tipos de clientes mais comuns que um revisor pode encontrar pelo caminho.
Então, papel e caneta na mão. Tome nota e se prepare para conhecer melhor o autor do seu texto e - de quebra - ainda dar boas gargalhadas. 

Let's go!

Mister/miss simpatia:
Tem um tipo de cliente que é bacana demais. Começa com uma abordagem correta, simpática, respeitosa. Entrega o trabalho para revisão dentro do prazo combinado. Desconsidera finais de semana e dá um prazo humanamente razoável ao revisor. Não enche o saco durante a revisão e termina pagando full, no dia da entrega. Se bobear, envia comprovante por Whatsapp. Esse é pra casar. Mas nem sempre é assim.

Cliente volátil:
Este começa bem e termina sem terminar. Aborda, pergunta, orça, envia trecho para a gente avaliar, combina prazo e, de repente, some. Dissolve no ar. Deixa a gente à beira do caminho, inclusive depois de ter recusado outro trampo por conta do compromisso. Como adivinhar?


Caloteiro:
Acredite se quiser, ele existe mas é raro. Este campo do livro, da revista, das teses e da revisão de textos não tem tanto cliente deste tipo. Em 20 anos de profissão, não passei nem duas vezes por esta agrura. Mas é preciso estar atento. Nem todo intelectual vai pagar. Imagina: você aceita o serviço, se mata de revisar, dia e noite, cumpre o prazo e o cara não paga. É dureza total.

Desconfiado dos infernos:
Este tipo é bem comum. Ele aborda o revisor, faz orçamento, envia trechos, combina prazos, não chora preço, é tudo muito razoável. Mas aí, quando você entrega o serviço ou alguma etapa, ele quer se sentar ao seu lado e receber explicações - e aulas aprofundadas - de cada mudança que você fez no texto. Tudo, tudo. E aí ele começa a desafiar você, traz a gramática que ele usou na sétima série, consulta sites no celular, discute a regra ou o padrão. Não acredita de jeito nenhum na sua competência 100%. E você precisa ser cortês, andar na linha, porque queimar o filme, nesta seara, é ficar sem serviço por um tempo.


Marty McFly:
Saudade de "De volta para o futuro"? De andar de Delorean? Então arranje um cliente como este. O cara - ou a fulana - chega junto, pede orçamento, combina tudo, ajeita o esquema com você, leva o serviço e paga. Mas aí, um mês depois, ela vem dizendo que ficou na dúvida, que a banca comentou e tal e que se você não pode "dar uma olhada de novo", isto é, ela volta do futuro ao passado e quer pagar uma vez só. Pois é. E dá-lhe cordialidade. É claro que se houver alguma falha mesmo, vale dar uma conferida. Mas e quando não?

Chorão:
Este cliente já dá pra prever. Cumpre o protocolo todinho de aproximação com o revisor. Normalmente, as pessoas chegam por indicação, querem seu serviço porque ouviram dizer algo positivo. É, de fato, uma profissão de confiança (tem gente que não prega um bilhete na geladeira sem consultar o revisor preferido). Mas daí começa a avacalhação: prazo apertado, correria total, revisão feita, entrega, gol. Na hora de resolver o orçamento, o cliente quer desconto, quer pagar menos, quer dividido em dez vezes. Eu já tenho resposta pronta para isso: meu prazo de recebimento é na mesma rapidez com que fiz a revisão. Os prazos apertados também demandam pagamentos a jato.

Desnecessário:
Abram alas, este tipo é meu preferido. Nem sempre ele fecha negócio, às vezes ele se confunde com o Desconfiado, mas não é. É melhor. Este é o autor/escritor que já sabe tudo. Ele liga e diz assim que eu não terei trabalho algum, que ele escreve muito bem, que sempre foi elogiadíssimo nas redações da escola, que está te ligando só porque a instituição exige, que nem precisava, mas que né... E você já sabe. É como se, salvando a proporção, você chegasse ao médico ou ao dentista já dizendo o dignóstico, o prognóstico e que o tratamento é uma grande bobagem. Revisor não mata ninguém, ainda bem. Daí você se ajoelha diante de tamanho talento, aceita fazer um serviço desnecessário e fica até culpado por cobrar a paga. Que honra, afinal.

Desgraçado sem cura:
Sem ironia, eu me enganei. O melhor de trabalhar é este. Geralmente, sem estereótipos, ele é da área de exatas. (Muito raro um cara de humanas dizer coisas assim... ou assumi-las, especialmente os do Direito). A figura liga, chega, orça e fica um tempão alertando a gente sobre quão péssimo o texto dele é. Diz que nunca soube escrever, que odeia Português, que se deu mal a vida toda, que não sabe como passou no vestibular, que não tem ideia de como conseguiu chegar ao fim da tese, que vou sofrer muito, que meu trabalho deve ser um inferno. Bom, o Saramago pescou isso no livro A história do cerco de Lisboa. O revisor é mesmo um coitado que lê coisas que não mereceriam ser lidas nem uma vez. Mas acontece muita alegria também.

Atrasadinho:
O cliente em foco tem problemas com o tempo. Já se aproxima dizendo que, pelo amor de Deus, só tem mais dois ou três dias. Tá. E eu? Que me dane, né? Tem uma tal de taxa de urgência que serve pra esses casos. Mas quem tem coragem de cobrar? Vamos lá. Negócios são negócios.


Compulsivo:
Este cara me enche mesmo a paciência. A gente explica pra ele que a revisão é a última etapa da edição. Escreve tudo, termina e só me entrega depois. Se você mexer no texto depois da revisão, eu não me responsabilizo, ok? Mas ele mexe. Ele não aguenta. Ele não está seguro. Ele quer escrever mais e melhor. E fica enviando novas versões enquanto eu trabalho. E me dá ódio renovado a cada versão que chega. Pô, vou ter de voltar? Repassar para o outro arquivo? Retrabalhar? Pois é. Alguém pare esse maluco!

Licenciado:
Mais um, mais um. O cara que tem licença poética para tudo. Qualquer maluquice que ele escrever será categorizada como "licença". Há quem seja até mais sofisticado e venha com o argumento do "neologismo", "produtividade linguística". #tamojunto, brô. Tem hora que não dá.


Revisor do revisor:
Mas desculpem se pareci arrogante. Ninguém é perfeito e o revisor não seria uma exceção. Revisores erram, revisores nem sempre são bons redatores (creiam!), revisores precisam de revisores. O bom é que quando a gente trabalha em uma área, tem sempre colegas de profissão. Aí a gente liga e diz assim: "Cara, dá uma olhadinha pra mim?". E tenta um escambo, para não ter de pagar. 

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